17 de out de 2009

Um elogio aos pais

s
s
s
Como milhares de pessoas, assisti pela televisão às cenas da babá que espancava um bebê de 6 meses e uma crianças de 2 anos, filhos de comerciantes de Aparecida de Goiânia. Apesar de ser a violência contra crianças e adolescentes o enfoque do meu trabalho profissional, não foi fácil assistir às cenas. Muitos sentimentos me invadiram: indignação, raiva, medo, compaixão... quanta dor, revolta e insensatez habitam o mundo de nossas crianças. Porém, um fato me chamou muita a atenção ao acompanhar o depoimento dos pais na TV e nos jornais: a forma como a família lidou com a situação de violência. As escolhas que a mãe e o pai fizeram demonstraram a qualidade e a saúde deste grupo familiar. A violência imprimida nas crianças poderá deixar marcas físicas ou emocionais, no entanto, esta família deu uma lição de equilíbrio. E, com certeza, demonstraram afetos e comportamentos essenciais para o saudável desenvolvimento psíquico de seus filhos.

A aprendizagem, particularmente nas primeiras fases do desenvolvimento humano, é desenvolvida prioritariamente por atos, comportamentos não-verbais, que demonstram os afetos implicados em uma relação interpessoal. No caso desta família, desde os primeiros indícios de agressão, os pais evidenciaram a presença de vínculos e afetos positivos em relação aos filhos. No momento em que a filha de 8 anos relata a agressão sofrida à mãe, esta repassa uma importante mensagem para a filha: que as crianças devem ser ouvidas e acreditadas.

Imaginem o alívio desta menina, quando sua mãe confiou em suas informações, sem desconfirmar sua palavra e sem lhe colocar culpa. Muitos pais atribuem uma responsabilidade indevida às crianças, dizendo: “Você deve ter feito alguma coisa de errado, você não é flor que se cheire ou você é um fraco mesmo. Por que não se defendeu? Será que você não provocou essa situação?”.

A mãe ouviu, não negou o fato, nem tampouco diminuiu a gravidade do relato da filha. Nos casos de violência que atendo, sempre uma pergunta ronda o imaginário das crianças: “Mas eu falei para minha mãe. Por que ela não acreditou, porque ela não fez nada para parar a violência?”
O pai deu significado ao que a mãe e filha trouxeram à tona e agiu. Não se deixou levar pelo tempo, pelas dificuldades do trabalho ou pelas suas obrigações profissionais. Deu prioridade absoluta à segurança de seus filhos. Foi tirar a prova, instalou um equipamento de monitoramento, que, claro, tem custo financeiro. Em 13 horas de gravação tinha a prova registrada, em vídeo, das imagens cruéis da babá.

Neste momento, outras importante mensagens são repassadas para os filhos: que as crianças são importantes e valiosas; que a segurança dos filhos está acima de tudo, independemente do custo financeiro ou emocional; que as verdades precisam ser enfrentadas, mesmo que isso signifique dor; que não se deve calar diante das injustiças e da crueldade.

Na minha percepção, a mais difícil mensagem foi dada pelo pai no momento da revelação da violência. Se as cenas deixaram um país ofendido, imaginem o estado do pai e da mãe. Imaginem a turbulência emocional que esses pais sofreram, tudo ao mesmo tempo: culpa, raiva, angústia, ódio, desejo de vingança. Aqui reside um importante diferencial entre o desatino e a sensatez, entre o descontrole dos impulsos e a regência autônoma e consciente dos mesmos.

As escolhas em nossas vidas não são fáceis de ser exercidas, todas têm o seu preço e o seu valor. E o pai escolheu o amor incondicional à família. Mesmo tomado de revolta, foi capaz de pesar o que seria melhor para os seus filhos. Ele poderia ter feito justiça com as próprias mãos, extravasado sua agressividade – que, no caso, não seria de toda injustificada, pois a violência cometida pela babá não tem justificativa. Porém, ele ponderou: “Se faço isso, agora estaria foragido ou preso, portanto distante, é disso que a minha família precisa?”.

O pai tomou sua decisão, que não foi de se calar ou se submeter à violência. Procurou a justiça. Não foi na primeira, nem na segunda porta que ele (o pai) foi ouvido e atendido em sua necessidade. Poderia, neste momento, ter desistido e pensado: “Essa justiça é uma droga, incompetente, morosa”. Não o fez e seguiu adiante. Procurou a OAB e a imprensa, munido com a prova do crime, a fita de vídeo. As imagens da violência foram, então, ao conhecimento público.
Não sei se o senhor João Batista Barbosa dos Santos (o pai) e a senhora Carla Fernandes Alves dos Santos (a mãe) têm a noção da importância de suas escolhas para os seus filhos e também para muitas crianças e adolescentes que sofrem com maus-tratos ou abusos neste país. Uma mensagem deixada pelos pais ficou marcada, não só para seus filhos, mas para todos nós: a mensagem da persistência e da credulidade nos valores humanos de justiça e da não-violência.
Vejamos, então, apesar das dificuldades que estes pais passaram no momento, tantas coisas eles puderam ensinar a seus filhos. Ensinaram de forma concreta e indubitável que suas crianças são a prioridade em suas vidas, que são confiáveis; que não precisam ser sacos de pancada ou válvula de escape de frustrações ou descontrole de ninguém; que elas não precisam esconder seus sofrimentos e medos para serem consideradas fortes; que nem sempre o caminho da justiça passa pela violência e que são amadas em cada escolha e cada ato por seus pais. Isso é tudo que meus pequenos pacientes tanto solicitam dos seus pais ou responsáveis.

Às vezes me coloco no lugar da garota de 8 anos e imagino que ela deva ter muito orgulho de seus pais. Ela (a menina) deverá guardar em sua gaveta de lembranças os dias em que seus pais a protegeram da violência e do descontrole da babá, demonstrando que as crianças precisam de cuidado e respeito. Os pais a protegeram de seus próprios desatinos e insensatez, ensinando que os afetos mais intensos (raiva, revolta) podem estar sob uma madura e inteligente gerência. E a protegeram, principalmente, de seu maior medo infantil, o de não ser considerada importante e valorizada de forma verdadeira por seus pais.

Sei que, às vezes, as feridas deixam cicatrizes e que a dor é intensa e parece não ter fim. Os traumas vividos podem ser superados, dependendo da forma que eles são tratados. Um importante passo para a superação é reconhecer a extensão da dor. Não negá-la ou minimizá-la. Outro passo fundamental é procurar ajuda profissional competente. Porém, cada um dará à ferida um significado para a sua vida. Alguns farão das feridas o estandarte de seu fracasso, do seu auto-conceito negativo, de sua menos valia. Outros, farão como os skatistas radicais, que consideram seus machucados como provas de coragem, vigor e superação. Ou farão como o ator Harrison Ford, que de sua cicatriz fez uma marca, um charme a mais para seus personagens de aventura. Ou ainda poderão fazer como a enamorada que aproveita de uma cicatriz de apendicite para tatuar uma linda rosa como declaração de amor ao seu muito amado.

Sei que a trajetória emocional desta família não será fácil. Mas gostaria de deixar um elogio de conforto aos pais João Batista e Carla, que muito me comoveram e muito me enalteceram como profissional que acredita na qualidade humana. Obrigada por mim e por seus filhos.


Cida Alves - psicóloga com formação em psicodrama terapêutico e em terapia de família e casal, especialista em atendimentos de pessoas em situação de violência, mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação/UFG e ex-secretária municipal de saúde de Bela Vista de Goiás.

Fonte: Esse artigo foi publicada no Jornal O Popular em 03 de agosto de 2002. Goiânia Goiás

Nenhum comentário:

Postar um comentário